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A caixaText from creative writting course with José Luís Peixoto.

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FragmentosText from creative writting course with José Luís Peixoto.

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Luz da PrimaveraText from creative writting course with Possidónio Cachapa.

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A aldeiaText submited to CEM for course aproval.

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Pieces of life Some texts from Crative Writing classes with José Luís Peixoto.

A caixa Text from creative writting course with José Luís Peixoto.

Quando o homem da cidade regressa a casa pesa sempre nele uma película suja. O autocarro, fértil do silêncio das pessoas, segue e deixa-o quase à porta de casa. Quando lhe apeteceu suspirar, como das outras vezes em que chega a casa, conteve-se. Há nele o mesmo fardo, a mesma intenção de fornecer ao mundo um qualquer grito que o alertasse, que o delongasse no ar mais do que dois segundos e lhe permitisse contemplar o seu futuro. Passam os cães, ondulam os pequenos rapazes em cima das bicicletas. Há um céu mesclado com a noite e com todos os fins possíveis. O homem da cidade abre a caixa do correio. Quando entra em casa espalha as cartas como se fossem restos da rouquidão humana. O homem da cidade repara num envelope azul. É um azul que parece ter brilho e vida própria. O homem da cidade não espera nada. Quando desdobra a folha que está dentro do envelope azul, ele sabe que este dia tem outro atalho, outra verdade. Com passos sem fulgor entra na sala e coloca os óculos. Tem na mão uma carta e tem muitos pensamentos dentro dele. A carta diz-lhe lugares, a carta tem frases com outros sítios, com muitos caminhos.

A manhã tem no horizonte os pensamentos da noite anterior. Na rua os bafos azulados à frente da boca das pessoas. O homem da cidade imita um sorriso mas não é um sorriso de verdade que vê desenhado no espelho retrovisor do carro. O homem da cidade tem muitas noites no rosto, o homem da cidade não dormiu a pensar no conteúdo da carta. Curvas e ruas apertadas, subidas abruptas e depois nada, depois uma casa, e logo a seguir uma igreja, um largo, uma praceta e pessoas velhas. O homem da cidade pergunta ao velho da vila onde está, aonde deve ir, por onde é. Segue com precaução. Encontra uma casa antiga e uma pequena caixa. Abre-a. A escuridade, de repente. A espessura de uma onda. O sopro vulcânico do medo. As sombras da casa sobre o seu silêncio a olhar o fundo da caixa. O homem da cidade tem todos os pensamentos em sua volta. São pedaços de carvão, são covas fundas na areia da praia, é o tempo indefinido quase inerte, asfixiado. O homem da cidade com a caixa aberta na mão.

A caixa cai no chão. Ele desassossegado. Ele dor, ele angústia, ele debaixo de um clamor que vem do sangue que corre nas suas veias. O homem da cidade sabe da perda e abana a cabeça. Quando se ajoelha sabe do dano dentro de si. Quando assomam à porta da casa antiga muitas pessoas, ele já sabe que nunca mais poderá sonhar.

Sucedem os dias. Dentro do homem da cidade já não habitam os sonhos. Passam muitos dias e o homem da cidade não sai de casa. Não dorme. Passam semanas. Não sai à rua, nem vê o tempo, nem vê as árvores, nem vê pessoas. Não dorme. Não sossega. Tudo é um escoar depois de uma tempestade. As noites e os dias. A lembrança de sonhar. Não dorme. O homem da cidade a expelir pensamentos e amargura .

Sem olhar para o homem da cidade, o médico dos cabelos grisalhos faz-lhe perguntas. As suas sobrancelhas cerradas. O homem da cidade conta-lhe das noites sobre as noites sobre os seus pensamentos. A sua voz fraca. Diz-lhe que perdeu os sonhos, que foram muitas noites sobre as noites sobre a claridade dos dias. O médico faz humm e escreve. O médico não olha para ele. Escreve. O homem da cidade fecha os olhos e lembra-se da caixa aberta. Uma dor no peito, o golpear na cabeça, os braços flácidos, a fraqueza nos joelhos. Medo, o homem da cidade diz medo e o médico dos cabelos grisalhos ergue as sobrancelhas grossas e diz hmmmmm. Escreve. O homem da cidade queixa-se, noites em claro, enfraquecimento, vozes mudas, mas o médico interrompe-o, diz tome estes comprimidos três vezes por dia. O homem da cidade vai-se embora.

Quando se deita na cama olha para o tecto e vê nele o Presente e o Passado. Não vê o Futuro. Na mesa de cabeceira um frasco com comprimidos roxos. O tecto branco. A noite negra. As veias salientes da mão. O homem da cidade não dorme há muitas semanas. Não sonha, não se lembra das noites límpidas nem dos dias com futuro. Abre a tampa do frasco e engole todos os comprimidos roxos. Quando as pálpebras se fecham é como uma porta que se abre.

FragmentosText from creative writting course with José Luís Peixoto.

Estou sentado nesta poltrona velha. Agora que sou apenas fragmentos passados e na minha carne já não desliza o mesmo sangue, fecho os olhos. Tenho os meus dedos grossos, palpitando no pó que repousa neste vinil. Descanso as pálpebras sobre os olhos e ouço o som abrupto do entardecer. A nossa música dentro desta calma enferma, Maria. Pertenço ao mutismo desta casa, pertenço aos meus gritos antigos que esbateram nas paredes desta sala, deste quarto, pertenço à velhice destes móveis. Tenho a minha mão sobre a nossa música e sobre o meu rosto jovem perto da tua pele branca, dos teus olhos verdes, perto da tua abundância. Sou feito da planície ocre que vejo da janela. A cerca de madeira, os arbustos secos e o vento nesses arbustos, a cuspir histórias distantes, o praguejar da vegetação, os pássaros em direcção ao sul e os anos que isso tudo demora. O entardecer quando dentro de mim este eco. O céu sem ser sol, sem ser nuvens, sem o meu olhar nele.
Maria, amor, intensidade.

Eu preciso que esta casa me escute. Eu quero que este silêncio te reconheça. Maria. Eu clamo e de mim nada sai. Estou preso a esta poltrona como estou preso às tuas memórias. Maria. Neste mutismo, nesta terra de ninguém e sem ninguém, refugio-me de uma vida de atalhos. Fugir da perda, fugir do dano que dei aos outros, fugir dos canalhas que defendi, fugir da minha imundície, da minha culpa. Todos vós, todos os espectros que arrastam as suas figuras sumidas nesta casa: quero que se vão embora, peço que se vão embora. É este o tempo. É agora a altura de sossegarem e deixarem o meu pensamento livre dos vossos sussurros e do vosso escárnio. Porque preciso das paredes desta casa, porque preciso dos quadros pendurados nas paredes, porque preciso das fotografias, pousadas sobre a estante, porque se penso saudade não quero ouvir assassino, porque se penso desejo não quero escutar cobarde. Não estou louco.
Maria, amor, sofrimento.

Levanto-me. Pego na minha bengala e caminho até ao alpendre. As luzes na colina. As luzes que dizem noite, exclamam frio, uivam morte. Tal como os meus gestos abrandam, a noite abranda. Sento-me. A cadeira de baloiço geme. O soalho geme. Acomodo-me. Tenho a noite em mim, tenho o frio em mim, tenho a morte em mim. Penso, enquanto vejo a lua esconder-se atrás da colina: quando tudo era o teu sorriso, Maria, quando fazia desse sorriso uma razão de vida, Maria, quando já não era um sorriso era uma lágrima, Maria, quando a lágrima se volveu em muitas lágrimas, Maria. Penso, penso porquê, penso porque não há mais nada que possa sentir, não há mais nada que faça sentido. Ponho uma coberta de lã sobre as pernas. Sinto os meus dedos rudes e espessos. Estou no alpendre de minha casa. Estou dentro da noite, da compreensão de todas as coisas que só vivem de noite. Penso, antes que venha de dentro da casa o mesmo murmúrio: afinal, o meu amor, afinal, a lei e a ordem, afinal, a mentira, afinal, o amor, afinal o engano, afinal o crime, afinal, a loucura, afinal, a solidão. Penso na vida a ser um desarranjo no tecido do universo, que se rompeu e caiu do céu numa noite como esta.
Maria, amor, nostalgia.

Luz da PrimaveraText from creative writting course with Possidónio Cachapa.

Foram os dias de ouro dos meus trinta e três anos. Já nem sei bem que escadas longas eram aquelas, nem sei se fiquei prostrado a olhá-la, enquanto ela adejava um pé atrás do outro em cada degrau. Vou imaginar que naquele céu de Março os meus olhos eram infalíveis e eram a minha esperança de ter na palma da mão um mundo feito só de arestas. Plantado no sopé cinzento das escadas eu acenava, punha o meu melhor sorriso e soletrava Até logo a fingir que ela ouvia. O sol desmanchava-se sobre o aterro de pedra, aquela monumentalidade toda, e nela o meu amor pecaminoso a caminhar para a Faculdade. Um clarão dentro da luz. O seu aceno, dentro do seu corpo torcido, alinhava-se com as minhas sobrancelhas esbugalhadas, que lhe entornavam qualquer coisa, palavras telepáticas «Estou aqui» ou «Vai, não te perco de vista, vai.». Dentro dos dias dourados, aquele momento foi o menos rutilante. Cada vez mais um corpo ligeiro, disforme, a agregar-se sem pudor ao cimento das escadas, cada vez mais eu a ofegar palavras de apelo, de saudade, de intenções predadoras. O meu tempo, diante da pedra e do sol batendo na pedra, tinha terminado.

Defronte destas barras de metal penso: o tempo é sempre mais breve que a eternidade dos homens. Enquanto ponho os meus dedos amplos e sinto neles o ferro inspiro o ar rude da prisão. Nos corredores as pegadas do mal. Nos uniformes a imobilidade do tempo. Nem sei porque recordo, não sei porque insisto na tua lembrança. Já não subsiste em mim o tom morno de Março. Há os meus passos no passadiço de metal, há a minha mão aberta ondulando nas barras de ferro, há a rotina como um monstro debaixo da areia numa praia deserta. Estou preso há mais de trinta anos. Dentro do quotidiano e da aspereza do quotidiano, dentro destas paredes e dentro destas vozes ao longo do dia há noites em que me atrevo sonhar. E hoje, que já nem sei se os meus cabelos estão encanecidos de sobrevivência ou de dor, acordei trôpego a lembrar-me de umas escadas e de letras azuis no cimo de uma fachada com muitas janelas, que diziam Faculdade e diziam, rasgando a calmaria do sol, Faculdade de Ciências. O pior que aqui pode suceder são as lembranças. Pensar que o tempo é mais breve que a eternidade dos homens, e deixar de mastigar, e deixar de querer prantear o uniforme sob um sol mais antigo e contíguo aos muros deste sítio, deste fio de terra. Acordei inchado de terror e de esperança. Não sei porquê. O tempo será mais lento que a eternidade dos homens.

Na bacia da minha cela entornei o meu rosto. Enxaguei trinta anos, procurei com a mão a toalha e dos olhos retirei o teu corpo torcido a meio das escadas, limpei as sobrancelhas e a testa. Com as duas mãos à frente das minhas outras mãos dentro do espelho asseei da memória o teu vestido às flores, a mochila que pendia nas tuas costas. Com o meu rosto malhado e a pingar esse sonho, essa memória, peguei na toalha mofa e abafei o som dos teus sapatos de verniz, crepitando a pedra, escorri da minha pele o teu aceno, à entrada da Faculdade de Ciências. Entrar nesse espaço amplo de descoberta, dizias. E eu pego na lâmina e raspo da minha face essas palavras. Levanto com os dedos esta carne rugosa e expulso do rosto os restos do teu sorriso, bano do meu anoitecer o teu aceno, a tua luz. Outono, Inverno, Verão, Outono, Inverno, Verão.

A aldeiaText submited to CEM for course aproval.

Cheguei ontem à aldeia do meu pai. O meu pai nasceu nesta aldeia quando o tempo era mais remoto. Como o frio da montanha, como as vinhas numa aragem sem fim, o frio da montanha dentro de mim a sair de mim a querer galgar o largo e a fonte e o muro pequeno que limita o largo. A fonte da aldeia. As pessoas em reunião desordenada, as pessoas e as velhinhas de xaile às costas dentro do frio que se atiça das montanhas, um xaile negro, de cor da morte. Vejo o meu pai. O meu pai de cabelos grisalhos, fixo no cimo da rampa, os cabelos grisalhos a cobrirem-lhe a calvície, os cabelos grisalhos, a chamar vem cá filho, um vento que vem da escuridão à minha frente, as vinhas, o meu pai a chamar vem depressa a tua avó está à espera, eu encolho-me na surdina que escapa das mulheres no tanque da aldeia. Olho para baixo, vejo mulheres de lenço na cabeça, as mãos azuis de um azul roxo, da água encardida, das roupas de encontro à pedra branca, a barra de sabão maior que a mão das mulheres, maior que os dedos das mão das mulheres, olho em baixo o tanque onde se ouvem muitas coisas, a montanha, um pio dum mocho atrás de mim, o frio que desagua no vale, é noite dum inverno ausente porque era muito tempo que lá não ia, a aldeia do meu pai. Escurece, os cães de volta, escanzelados, os cães à minha volta, a ponta dos focinhos a aludirem nas minhas calças de fazenda castanha, os focinhos dos cães na minha roupa como se eu fosse alimento, negros, húmidos, eu sou a escuridão da cidade, eu rasgo um caminho de terra entre os cães, os pêlos enfraquecidos, o frio que vem das montanhas e agora é um gigante escuro, negro, negro de ser tão perto do céu sem estrelas sem lua sem horizonte.

O meu pai dum olhar no cimo da rampa se não vens vou aí anda lá rapaz, eu com o boné aferrado à cabeça, tenho a mão direita no bolso e junto dois berlindes na fundura do casaco de malha, sai de lá um som que arrepia, vidro com vidro redondo com redondo, digo já vou já vou, as botas levantam pequenas pedras negras de xisto, a meio da rampa uma mulher à filha traz o cesto rapariga temos de fazer o jantar ao teu pai anda lá, a montanha negra de um negro de folhas verdes escuras e troncos muito altivos como se tivessem a conversar em surdina com deus, eu a subir a rampa com os berlindes de vidro a riscarem um no outro a desviar os olhos do frio e da noite que agasalha uma negrura como eu nunca vi. Estou à entrada da casa. Os portões pintados à pouco de um cinzento breve, o meu pai do pátio interior anda lá rápido, um portão À minha frente como um portão duma prisão que range. As vinhas numa extensão que os olhos não chegam. As janelas cheias de luz amarela espalhadas, as nuvens de fumo das chaminés como rodilhas ao acaso na mesa de madeira, o céu da noite sem lua, sem estrelas, a escuridão a mastigar duma vez a aldeia. Subo as escadas de pedra. À minha esquerda a horta do meu avô, o meu avô no cemitério lá em baixo junto à estrada que traz a cidade, o meu avô a plantar tomates e batatas, subo as escadas a lembrar-me de coisas pequenas de quando era muito pequeno, anda cá cachopo, dizia com um tomate vermelho na mão acabado de colher, e sorria, era um sorriso habilidoso, impossível de resistir.

Eu. Eu a ser mais pequeno que ontem, a subir as escadas como agora e a virar-me para a esquerda, a cheirar a horta e o aroma da terra revolvida, as mãos hercúleas do meu avô a sulcarem a terra, rasgos na terra como se fossem rasgos na carne, o meu avô, o cemitério lá em baixo, o meu avô de cabelos muito ralos, transparentes à luz do sol que encandeia, subo as escadas a darem num pátio pequeno.O pátio da figueira, ainda cá está penso, a tirar o gorro azul da cabeça, a figueira que é a cobertura da casa de ser tão grande de ter folhas enormes, verdes e às vezes castanhas que tombavam quando eram pequenas mortes a saírem das feridas do troncos, dos ramos que pendem como arcos de barro. O pátio, sigo o olhar às coisas antigas, aos verões de quando era mais pequeno, o meu pai lá de dentro a dizer à minha avó está lá fora, a minha prima teresa está onde, está onde de repente, da porta aberta, da sombra escura lá dentro, de repente, as minhas primas teresa e fernanda, os óculos da minha prima fernanda muito perto do meu nariz vermelho do frio ai que grande que ele está manel, o meu pai a assomar da escuridão da porta, da porta que é um rectângulo negro a sair da parede de cal, as minhas primas pegam em mim, rodopiam, o pátio, o muro do pátio, tenho os olhos no tecto a ouvir a minha prima fernanda como estás primão, eu encardido de frio, eu hirto nos braços da minha prima fernanda, no ar, no ar, ela a cansar-se ele está pesado manel.

O meu pai emoldurado no rectângulo preto, o meu pai, eu a ver os dentes dele e a parede de cal, o meu pai vá venham para dentro a avó está à espera. Tenho os braços estirados, tenho os dedos pequenos nos dedos de mulher das minhas primas a puxarem-me para dentro da casa, sou levantado, sou a roupa pequena e as calças de fazenda castanha que levam a escuridão da noite. Liberto-me das mãos de mulher das minhas primas, corro à luz da lareira, um fogo, um fogo que dança nas paredes e nas traves grossas de madeira da sala. Está um frio cru que vem da noite, quem vem das montanhas e das vinhas, a minha avó numa voz curvada, de xaile negro sobre os ombros carcomidos a cobrirem muitos anos muitos passos pequenos num mundo tão distante do meu, a minha avó de chinelos pretos de lã muito grossa vem cá pequerrucho, a apertar-me as bochechas, a mão quente e o frio das montanhas nos meus olhos, a fonte lá em baixo, os cães a uivarem ou serão lobos, olha os lobos diz a minha avó, a voz dela a acamar a lareira, a minha mãe do fundo dos tachos, do avental de plástico muito gasto ó emília não lhe faça medo que ainda lhe mija os lençóis, as minhas primas com as mães delas, as minhas tias na sala pequena, à varanda a fumarem, a verem da varanda a noite ser uma tela de alcatrão negro. Eu. Eu a desprender-me, o xaile negro da minha avó, eu a correr para as cinzas que marcam o chão perto da lareira, o meu pai num passo arrastado na pedra de um castanho liso cuidado cuidado o fogo está muito alto, a minha mãe a cortar batatas a olhar a lareira, eu a sentar-me num banco antigo de madeira, um banco que é uma casa de ser um bloco de madeira escura com costas maciças a fazerem sombra sobre mim, eu a sentar-me nele a desaparecer nele a ver o fogo a olhar nos olhos do fogo o crepitar da madeira, hipnotizado. Eu. Abano as pernas que não tocam no chão, o banco de madeira antigo é um abrigo, tem pesadas gavetas em baixo, tem gavetas cheias de utensílios de ferro e pedaços de madeira seca, uma tesoura que pego a custo com as duas mãos, os dedos de menino numa tesoura de lareira de ferro negro, o fumo pelas paredes da chaminé como demónios nas montanhas, nas vinhas, nas folhagens, no verde quase negro das folhas, a noite cerrada numa voz de um ancião.

Pieces of life Some texts from Crative Writing classes with José Luís Peixoto.

#01

As tuas mãos. Eu olhava pingos de chuva no vidro e sentia as tuas mãos nas minhas calças. A voz sempre dentro de mim. O som coalhado, desordenado, navegava dentro do autocarro. Conto-te a humilhação, pai. Conto-te os rostos ruborizados repletos de escárnio. Ponho os meus olhos nas tuas mãos, as minhas calças sujas. A lareira, o Outono a ser Inverno a ser o teu abraço, a serem juntos as tuas palavras desembaraçadas. Como as tuas mãos que amparam a sujidade e a minha aflição. Eu, dentro do sofá, as minhas pernas nuas, lisas, húmidas. Conto-te da queda, dos meus olhos fechados do medo, o medo naqueles instantes e na minha lembrança de ti, pai. Lanço a minha voz à tua paciência. Tive vergonha, pai. Só o motorista veio ter comigo. Pai, chovia tanto. Os meus braços levantados, as tuas mãos na lã, os teus dedos na minha pele, a minha pele branca. Conto-te pai, como o autocarro se esventrou e eu pensei ouvir a tua voz. As tuas mãos sem qualquer tremor, o teu rosto ladeado pelo fogo. Ouço-te pai, as tuas mãos dizem-me calma, os teus olhos como um cobertor sobre mim.

#02

Maria estagnou defronte da janela. A manhã continha os sons de outras manhãs. Havia a mesma neblina. Maria pousa o balde com água no chão. O seu reflexo no vidro da janela. A quietude nas folhas das árvores. Maria mergulha a mão direita na água e pega na esponja. Espuma, salpicos, as gotas no cimento. A manhã é uma nuvem a esmorecer, a deixar-se romper pelo sol. Maria circula a esponja no vidro. Pessoas passam, pessoas com malas na mão correm. O pulso de Maria em círculos. O reflexo distorcido das pessoas que passam no vidro. Os automóveis, o guincho dos travões dos automóveis. Maria apoia a mão esquerda na parede e faz muitos círculos e muitas rectas de espuma no vidro. O avental escorre todas as gotas, toda a espuma.

#03

Chegar aqui não foi um instante. Pertenço a esta cidade electrónica. Eu sou a tecla da letra A, a primeira de todas as letras. Sou plástico e fui feita para, em conjunto com as ouras teclas das outras letras, construir um teclado. Muitas teclas de muitas letras todas alinhadas. Pertenço um exército de letras. É isso. Por baixo de mim circuitos electrónicos e informação e delicados fios de metal. Juntas somos como uma cidade sem maldade, sem caos, sem gritos. O que eu digo e o que dizemos todas as teclas e todos os circuitos está escrito neste enorme quadro negro atrás de mim, ao alto.

#04

Como as marés, venho desaguar às tardes de Maio sem noção do tempo. Caminho e destruo-me. Às vezes, acompanho os meus pés descalços na areia com pensamentos embebidos na brisa da tarde.

#05

Aqui, nesta terra demorada, os corpos das mulheres são lembranças. Nesta luminosidade, resta em cada corpo martirizado, a ofensa do abandono. Lembro-me.

#06

O cão de Helena foi atropelado. «Não aguento mais», disse Helena. Ia e vinha. No corredor do hospital, Helena falava alto ao telemóvel, ia e vinha, soltava desabafos de encontro à paredes. «Estás sempre ausente, João». A porta das urgências num movimento abrupto, oscilante. «Já te volto a ligar», disse Helena, de olhos pregados na bata ensanguentada da médica.
João entra em casa e procura Helena. «O cão? Onde está?» Helena olha a rua através da janela e vê a noite perto. Não responde. «Diz-me. Exijo que me digas onde ele está», disse João. Helena soltou uma gargalhada. João olhou-a apreensivo.